Peter Burke. Uma História Social do Conhecimento: de Gutenberg a Diderot.

Um resumo sobre o trecho selecionado da obra “Uma História Social do Conhecimento: de Gutenberg a Diderot” escrtita por Peter Burke.

 

O nascimento da propriedade Intelectual p.138

Exploração do conhecimento para o ganho e a necessidade de proteger os segredos de ofício como “propriedade intelectual valiosa”. Privilégios temporários ou duradouros.

Particularidade das categorias na história: “duas concepções de texto (ou de imagem), a ‘individualista’ e a ‘coletivista’”. “A idéia de ‘propriedade comum’ é certamente ambígua. É preciso perguntar: comum a quem? E a resposta freqüentemente é: ‘comum a um grupo social’(…). No início do período moderno, os cuidados complementares e opostos de manter e divulgar os segredos de ofício podem ser encontrados em inúmeros campos”.

Espionagem Industrial

Avanço do saber sustentado pelos efeitos econômicos.

“A espionagem industrial não pode ser definida com precisão num período em que os empreendedores podiam orgulhar-se de exibir sua tecnologia a visitantes estrangeiros” p.140.

“(…) ’ponta da espionagem no espectro da informação’, ligando-a a tentativas dos governos e empreendedores individuais de atrair trabalhadores capacitados do estrangeiro. A razão para isso é que o conhecimento dos ofícios era e é difícil de ser formulado por escrito, de modo que migração das técnicas era acompanhada pela migração dos trabalhadores” p.140.

Comércio e informação

“Busca da informação que nos falta e proteção da informação que temos”

Feiras-trocas: informações, mercadorias.

Cultura mercantil – cultura escrita.

Cartas – bancos de dados virtuais.

“Importância e percepção da importância da informação no comércio internacional”p.142.

Espionagem: política, industrial, comercial (boletins).

Competição acirrada – “vantagens com informações marginais”.

“A informação sobre mercadorias é em si mesmo uma mercadoria, e havia um mercado preparado para as informações sobre os mercados” p.142.

“Informações sobre transações [comerciais] passadas eram um guia para estratégias futuras, e por isso companhias comerciais e firmas privadas passaram a manter registros e até arquivos” p.142.

Rotas de comércio – “conhecimento da geografia e da navegação”: valor comercial.

Palestras, história das empresas e mapas.

“Sem exagerar na semelhanças entre o início da era moderna e o século XX, poderíamos dizer que as companhias já atuavam como patrocinadoras da pesquisa”p.142.

A informação e a VOC

Companhia da Índias Ocidentais Holandesa – sucesso atribuído a sua “eficiente rede de comunicação” p.143.

Mapeamento dos territórios -  mapas e informes atualizados constantemente.

Preocupação em manter as informações em segredo – impressores prestavam juramento.

Importância das informações políticas para o comércio.

Relatórios regulares: VOC (informações comerciais em forma de estatística voltadas para o marketing), Veneza, Sociedade de Jesus. Estado e Igreja também se interessaram pela estatística!

O surgimento das bolsas de valores p.144

“Bolsas, que eram entre outras coisas, instituições para troca de informações, (…)”

“Originalmente mercados de produtos, elas se tornaram mercados de títulos e ações”.

“Os bolsas eram particularmente sensíveis a notícias que afetassem a oferta e a procura.” [Será mera coincidência?]

Rumores – pressão para baixar ou aumentar presos.

Seguro marítimo – negócio – informação.

“Tal como os corretores de ações, os seguradores também se encontravam em cafés particulares para trocar informações”. Exemplo: informações sobre chegada e partida de navios. Interessados: comerciantes. Revista especializada sobre navegação; corretora de seguros (Londres).

A impressão e o comércio do conhecimento  p.145

“A aquisição de conhecimento sobre assuntos comerciais foi obviamente reforçada pela impressão”

Tratados “sobre como ser um bom comerciante”; dicionários de comércio.

“Informações comerciais sobre feiras de negócios, chegadas de navios e preços de diferentes mercadorias eram cada vez mais disponíveis em forma impressa.

“Informações comerciais de tipo mais confidencial também chegavam a ser impressas com ou sem autorização” – publicação de livros sobre a história das companhias de comércio (VOC).

“A própria publicação de livros era um negócio que já atraía o interesse de negociantes que já ajudavam a financiar impressores no século XV”.

“A impressão encorajava a comercialização de todos os tipos de conhecimento. Uma conseqüência óbvia, mas significativa, da invenção da imprensa foi envolver os empreendedores de maneira mais direta no processo de difusão do conhecimento, o ‘negócio do Iluminismo`”.

Publicações simultâneas sobre o mesmo assunto – evidência de forte concorrência – procura dos impressores para diferenciar seus produtos: “O impulso para produzir atlas, enciclopédias, etc cada vez mais amplos de detalhados era alimentado pela concorrência comercial”

“Alguns impressores estavam pessoalmente comprometidos com movimentos intelectuais como o humanismo, a Reforma Protestante, ou o Iluminismo” p. 146.

Impressores mercenários – guerras religiosas.

Século XVII – anúncios em jornais, almanaques, livros e revistas contento informações comerciais. Catálogos enviados aos consumidores (séc. XVIII) p. 147.

“À medida que aumentava o lucro potencial aumentava a urgência em proteger a propriedade literária e intelectual por meio de leis gerais”.

Lei do Direito Autoral – Grã-Bretanha (1709). “Podemos interpretar a aprovação dessa lei como uma tentativa de resolver o problema das concepções rivais relativas ao conhecimento como privado ou público”.

Lei do Direito Autoral do Gravador – Grã-Bretanha (1735)

Lei do Direito Autoral na França (1791-1793: Revolução Francesa)

“Mas o plágio continuava” e também a pirataria.

Veneza no século XVI – [famílias]

“A concorrência era acirrada e não eram raros os impressores que praticavam espionagem industrial adquirindo provas de um livro em fase de produção para produzir uma edição rival quase simultânea. Não por acaso o primeiro direito autoral concedido a um escritor o foi em Veneza, nesse período”.

Escritores profissionais – diversidade de formas e de conteúdos dos escritos. Os poligraphi trabalhavam para editores particulares como organizadores e revisores (resultado da imprensa) p.148.

“Livros impressos não eram simples mercadorias. Eram tanto presenteados como vendidos, e esses presentes, como as dedicatórias cos autores a seus patrocinadores, ajudavam a manter as relações sociais”.

“Escritores mercenários seguiam os passos de editores mercenários”.

Amsterdã nos século XVII [famílias predominavam na arte da impressão]

República Holandesa substitui Veneza  no século XVII como “principal centro e mercado da informação”. “’Principal entreposto europeu’” de informações sobre o leste da Ásia nas décadas de 1650 e 1660. p.149

Material impresso em diferentes línguas – prosperidade para a “’nova nação’” – especialização possível pelo trabalho das minorias étnicas. Vendiam nos países de origem das línguas “mais barato que o produto doméstico”.

Meados do séc. XVII – Amsterdã era a principal produtora de livros da Europa.

“Como em Veneza, mapas e relatos de viagem constituíam parte importante do repertório dos impressores.

“Diáspora Calvinista contribuíu para a explosão do jornalismo”.

Londres no século XVIII

“The Trade [o negócio, o comércio] era aplicada aos livreiros como se fossem os negociantes por excelência” p.150.

“Pela primeira vez, alguns escritores, principalmente autores não ficcionistas, recebiam de seus editores adiantamentos suficientemente grandes para que pudessem começar a pensar em abandonar os patrocinadores e viver dos ganhos de sua escrita”.

“’Se você fala dele [livro] como objeto de comércio, ele será lucrativo; se como um livro para aumentar o conhecimento humano, creio que não haverá muito disso’”.

Para escritores patrocinados havia muitos empobrecidos, considerados como mercenários.

Quanto aos impressores: “(…), os impressores precisavam de capital vultoso, ainda mais que depois de dar o adiantamento e imprimir o livro podiam sofrer com a pirataria nos mares bravios do conhecimento. Piratas literários tendiam a operar do outro lado das fronteiras dos Estados centralizados, em zonas onde os direitos dos impressores não pudessem ser protegidos” p.150-151.

“Para sobreviver nesse mundo cada vez mais competitivo, os impressores e livreiros faziam alianças mais freqüentes, especialmente na Grã-Bretanha”.

Uma estratégia para conseguir capital de giro – dinheiro adiantado -  era publicar por assinatura.

Jornais e revistas  

Periódicos dependiam de assinaturas.

“(…), os jornais e revistas que começaram a ser publicados depois de 1600 são os gêneros literários que melhor ilustram a comercialização da informação. As notícias já eram vistas como mercadorias no século XVIII” p.152.

“Boletins manuscritos, contendo todas as notícias impróprias para a impressão, eram empreendimentos comerciais nesse período. Permitiam ao escritor ou ‘repórter’ sobreviver e, ocasionalmente, vender o negócio a um sucessor”.

Gazetas de notícias – impulso das guerras para seu sucesso.

“Conhecimentos do tipo acadêmico eram difundidos por revistas cultas, publicadas mensalmente ou a cada dois meses”. Revista culta demonstrou ser um bom negócio quando sua forma foi pirateada.

O surgimento das obras de referência

“O problema de encontrar a informação (…) é antigo” p.153.

Ampliação do número de livros – resenhas (final do século XVII). Para resolver o problema produz-se as obras de referência (séc. XVIII): enciclopédias, dicionários, atlas, bibliografias, almanaques, herbários, cronologias, diretórios, manuais, catálogos, obras geográficas, antologias, etc.

Nas palavras de Melchior Grimm “’A mania pelos dicionários é tão aguda entre nós que alguém acaba de imprimir um Dicionário dos dicionários’” p. 153-154.

“A proliferação também levou à especialização”.

“Um número crescente de obras de referência era produzido para faixas específicas de público, (…)”.

Enciclopédias

“… as enciclopédias se tornaram mais numerosas, maiores, mais pesadas e mais caras” p. 155.

Propaganda para venda e subproduto (obras de referência portátil).

“A compilação de enciclopédias se tornava um ofício especializado”.

“A propagação da pesquisa e da escrita coletivas era outra tendência”.

“Enciclopédias em vários volumes ilustram a comercialização do conhecimento com particular clareza, uma vez que empreendimentos de larga escala requeriam maior aporte de capital”. Associações de livreiros, mais as assinaturas.

“… o comércio de conhecimento não era novo no século XVIII. O que era novo era que o conhecimento se tornara um grande negócio. A descrição da Enciclopédia por um de seus editores, Charles Joseph Pancoucke, como ‘um assunto de dinheiro’, é um bom resumo. Dono de 17 revistas, Pancoucke conehcia mais do que todos o processo de vender conhecimento” p.156.

Comparações e conclusões

Comercialização do livro – “’Revolução do consumo’ ou ‘nascimento do consumo’ no século XVIII.

“’comercialização do lazer’ e o ‘consumo de cultura’” – “para quem quer que se dispusesse a pagar” p.156.

Mundo Islâmico – resistiu a impressão tipográfica no período.

Japão – tendências paralelas ao ocidente (comercialização e urbanização). Livrarias – “livros para consumo”; catálogos.

China – alfabetização considerável. “… havia uma tendência a mercantilização na China assim como na Europa, embora na primeira essa tendência parece ter se mantido aquém da enciclopédia”.

“As enciclopédias  chinesas atingiram vastas dimensões muito antes das ocidentais”.

Publicações – grandes – patrocinadas pelo Império, século XVIII. Produção para os burocratas imperiais, portanto controlada.

“organização burocrática do conhecimento na China” – “ligado à coerção” p.158.

“organização mais empresarial do conhecimento, na Europa, às vezes conhecida como ‘capitalismo da impressão’” – ligado à produção via impressão, “e isso levou a um sistema de conhecimento mais aberto” p.158